A relação entre mente e corpo é mais forte do que parece. A obesidade, além de ser uma doença crônica complexa, está profundamente ligada à saúde mental — e entender essa conexão é fundamental para quebrar o ciclo de culpa, estigma e sofrimento que muitas pessoas enfrentam. Afinal, a obesidade pode causar sofrimento emocional, mas o sofrimento emocional também pode favorecer o ganho de peso.

Uma Relação de Duas Vias
Pesquisas mostram que obesidade e saúde mental estão conectadas de forma bidirecional: pessoas com obesidade têm maior risco de depressão e ansiedade, enquanto transtornos mentais aumentam a chance de ganho de peso e compulsão alimentar. Um estudo publicado no Archives of General Psychiatry (Luppino et al., 2010) revelou que indivíduos com obesidade têm 55% mais risco de desenvolver depressão. Já pessoas com depressão têm 58% mais chance de ganhar peso ao longo do tempo.
O Efeito do Estigma
O estigma da obesidade — o preconceito contra o corpo obeso — é uma das principais causas de sofrimento psicológico. Muitos indivíduos relatam vergonha, isolamento e medo de buscar atendimento médico (Puhl & Heuer, 2010). Esse estigma tem consequências reais: baixa autoestima, transtornos alimentares e evasão de atividades físicas. E quanto maior o estresse psicológico, maior a liberação de cortisol, hormônio que também estimula o apetite e o acúmulo de gordura abdominal (Epel et al., 2001).
O Cérebro Também Tem Fome
O estresse crônico e a disfunção emocional alteram o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), sistema que regula a produção de cortisol. Quando esse sistema está sobrecarregado, o corpo entra em modo de defesa: aumenta o apetite, reduz o gasto calórico e acumula gordura como proteção (Kenny, 2011). Além disso, baixos níveis de serotonina e dopamina estão associados à busca por alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar e gordura, que trazem alívio momentâneo, mas pioram o quadro a longo prazo.
Tabela – Como Emoções e Obesidade se Relacionam
| Emoção predominante | Efeito no comportamento | Consequência no corpo |
| Estresse crônico | Aumento do cortisol e da fome emocional | Acúmulo de gordura abdominal |
| Ansiedade | Busca por alimentos recompensadores | Ganho de peso e compulsão |
| Tristeza / depressão | Falta de motivação para se exercitar | Sedentarismo e sobrepeso |
| Vergonha corporal | Evitação social e autoexclusão | Isolamento e sofrimento emocional |
O Impacto das Redes Sociais e o Ideal do Corpo Perfeito
As redes sociais têm intensificado o sofrimento emocional de muitas pessoas que convivem com a obesidade ou com a insatisfação corporal. A exposição constante a imagens de corpos considerados perfeitos — muitas vezes digitalmente manipuladas ou fruto de padrões inalcançáveis — alimenta sentimentos de inadequação, culpa e comparação. Estudos apontam que o uso excessivo de plataformas visuais, como Instagram e TikTok, está associado ao aumento da insatisfação corporal, da ansiedade e da depressão, especialmente entre jovens e mulheres (Fardouly & Vartanian, 2016; Holland & Tiggemann, 2017). Além disso, a cultura do ‘antes e depois’ e os discursos sobre emagrecimento rápido reforçam a ideia de que o valor pessoal está ligado à aparência, e não à saúde. Esse tipo de conteúdo contribui para o ciclo de baixa autoestima e comportamentos alimentares disfuncionais, afastando o foco da saúde integral e do autocuidado. É essencial promover uma educação digital em saúde, baseada na valorização da diversidade corporal e na construção de uma relação mais saudável com a imagem e a comida.
O Caminho para Quebrar o Ciclo
A recuperação começa com empatia e autocompaixão. Não existe saúde integral sem saúde mental. Pequenas atitudes fazem diferença: buscar apoio psicológico, praticar atividade física prazerosa, adotar alimentação equilibrada sem culpa e reconhecer que o corpo é parte da história, não o inimigo.
Conclusão
A obesidade e a saúde mental caminham juntas — e só podem ser enfrentadas com acolhimento, ciência e empatia. Quando o tratamento olha para o ser humano como um todo, o corpo responde.
Continue acompanhando a Fructus e descubra como mente e corpo podem trabalhar juntos para transformar saúde em qualidade de vida.
E você?
Se trate com o mesmo cuidado que você oferece aos outros.
Deixe sua opinião nos comentários e compartilhe com alguém que precisa desse conhecimento.
Referências
- ABESO. Posicionamento Oficial da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica. São Paulo: ABESO, 2022.
- Cani PD, et al. Changes in gut microbiota control metabolic endotoxemia-induced inflammation in high-fat diet-induced obesity. Diabetes. 2008.
- Epel ES, et al. Stress and body shape: stress-induced cortisol secretion is consistently greater among women with central fat. Psychosom Med. 2001.
- Fardouly J, Vartanian LR. Social media and body image concerns: current research and future directions. Curr Opin Psychol. 2016;9:1–5.
- Holland G, Tiggemann M. A systematic review of the impact of the use of social networking sites on body image and disordered eating outcomes. Body Image. 2017;17:100–110.
- Kenny PJ. Reward mechanisms in obesity: new insights and future directions. Neuron. 2011.
- Luppino FS, et al. Overweight, obesity, and depression: a systematic review and meta-analysis of longitudinal studies. Arch Gen Psychiatry. 2010.
- Milaneschi Y, et al. Depression and obesity: evidence of shared biological mechanisms. Mol Psychiatry. 2019.
- Puhl RM, Heuer CA. The stigma of obesity: a review and update. Obesity. 2010.
- Puhl RM, et al. Reducing weight stigma in healthcare: perspectives of patients and providers. Obesity Reviews. 2018.
- Tomiyama AJ. Weight stigma is stressful. A review of evidence for the cyclic obesity/weight-based stigma model. Appetite. 2014.
- World Health Organization (WHO). Obesity and Mental Health: Policy Brief. Geneva: WHO, 2025.


Deixe um comentário