Mais do que emagrecer: uma nova forma de viver
A obesidade é uma doença crônica, progressiva e multifatorial — resultado da combinação entre genética, metabolismo, comportamento, ambiente e emoções.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (2025), o excesso de peso já afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, e o Brasil está entre os países onde o número de cirurgias bariátricas mais cresce.
Mas a verdadeira questão não é apenas “como perder peso”, e sim como manter a saúde, o equilíbrio e a consciência após o emagrecimento.
“A cirurgia bariátrica não é o fim da jornada — é o começo de uma nova vida.“

A obesidade: entre biologia e comportamento
A obesidade é marcada por um desequilíbrio entre o que o corpo precisa e o que ele armazena, mas vai muito além da matemática “calorias que entram e saem”.
Após longos períodos de ganho de peso, o corpo passa a defender o peso mais alto alcançado. Isso ocorre porque hormônios como leptina, grelina e insulina são ajustados para “proteger” as reservas energéticas, dificultando a manutenção da perda (Sumithran et al., NEJM, 2011).
Além disso, o ambiente moderno — com excesso de ultraprocessados, estresse, privação de sono e sedentarismo — cria um cenário em que o cérebro é estimulado a comer o tempo todo, mesmo sem fome fisiológica.
Esses fatores explicam por que a obesidade é uma condição biológica e comportamental, não um simples problema de vontade.
Cirurgia bariátrica: ferramenta, não milagre
A cirurgia bariátrica é uma estratégia terapêutica segura e eficaz para o tratamento da obesidade grave (IMC ≥ 40 kg/m² ou ≥ 35 kg/m² com comorbidades).
Estudos mostram que ela pode reduzir até o excesso de peso e promover remissão de diabetes tipo 2 e hipertensão arterial em grande parte dos casos (Cummings & Cohen, Diabetologia, 2023).
Um ponto essencial:
“A cirurgia oferece uma chance de controle — não uma promessa de cura.”
Sem reeducação alimentar, acompanhamento médico e mudanças emocionais profundas, o paciente pode reganhar peso e enfrentar novas complicações.
O sucesso depende da adesão e da consciência de que o tratamento é vitalício.
As fases da jornada bariátrica: antes e depois
| Etapa da jornada | Foco principal | Desafios e cuidados |
|---|---|---|
| Pré-operatória | Avaliação médica e psicológica, preparo nutricional | Expectativas realistas, apoio familiar e controle da ansiedade |
| Pós-operatória imediata (0–3 meses) | Adaptação alimentar e cicatrização | Alimentação líquida e pastosa, suplementação e paciência |
| Fase de estabilização (3–12 meses) | Retorno gradual à alimentação sólida | Monitorar intolerâncias, evitar álcool e ultraprocessados |
| Fase de manutenção (após 1 ano) | Consolidação dos hábitos saudáveis | Acompanhamento contínuo e prevenção do reganho de peso |
Fatores que determinam o sucesso após a cirurgia bariátrica
Eixo de impacto (escala 1–10):
| Fator | Grau de impacto |
|---|---|
| Acompanhamento nutricional | 10 |
| Apoio psicológico | 9 |
| Adesão ao plano alimentar | 9 |
| Prática regular de atividade física | 8 |
| Suplementação adequada | 8 |
| Sono e manejo do estresse | 7 |
| Ambiente familiar e social | 6 |
“O sucesso é multifatorial — depende tanto da equipe quanto do paciente.“
O tratamento da obesidade precisa de protagonismo do paciente e responsabilidade da equipe.
A adesão terapêutica é o maior preditor de sucesso.
Reeducação alimentar: o pilar da manutenção
O maior desafio após a cirurgia não é perder peso, mas preservar o resultado e manter a saúde metabólica.
Após a cirurgia, o paciente precisa reaprender a comer e a sentir saciedade.
A reeducação alimentar deve priorizar alimentos in natura e minimamente processados, respeitar sinais de saciedade e incluir a mastigação consciente.
O paciente precisa reaprender a comer com atenção plena, reconhecendo o alimento como fonte de energia e não como válvula emocional.
Segundo a ABESO (2022), o sucesso está em transformar o ato de comer em um gesto consciente e equilibrado.
O objetivo não é apenas emagrecer, e sim reconstruir uma relação saudável com a comida, com o corpo e com as emoções.
“Mais difícil do que emagrecer é continuar escolhendo o que te faz bem.”
Responsabilidade e autocontrole: o novo milagre
“A cirurgia é uma arma poderosa, mas perigosa se usada sem disciplina.”
O controle não está apenas nas mãos da equipe médica — ele é compartilhado.
O paciente deve ser protagonista da própria jornada, adotando rotina, autocuidado e acompanhamento contínuo.
A responsabilidade é o elo entre a ciência e o resultado.
Sem ela, a cirurgia perde o sentido.
Dicas práticas para o sucesso pós-bariátrico
- Não pule acompanhamentos. Consultas regulares são essenciais.
- Mastigue bem e coma devagar. A saciedade demora alguns minutos para ser percebida.
- Evite bebidas durante as refeições. Elas podem distender o estômago e reduzir o tempo de saciedade.
- Durma o suficiente. Sono ruim altera hormônios da fome e da saciedade.
- Não negligencie o suporte psicológico. A comida é, muitas vezes, uma resposta emocional.
- Pratique atividade física leve e regular. Fortalece o corpo e a mente.
- Evite álcool e alimentos ultraprocessados. Eles dificultam a absorção de nutrientes e favorecem o reganho de peso.
- Celebre pequenas conquistas. A mudança é contínua, e cada passo conta.
Conclusão: a cirurgia é o início, não o fim
A obesidade não é uma falha moral, mas uma doença complexa que exige cuidado contínuo.
A cirurgia bariátrica oferece um novo começo, mas o sucesso real está em transformar o conhecimento em constância.
“O controle é o novo milagre — e o autocuidado, a verdadeira cura.”
Com responsabilidade, acompanhamento e reeducação alimentar, é possível não apenas emagrecer, mas reconstruir a relação com o corpo e com a própria vida.
“Mais do que uma cirurgia de estômago, é uma cirurgia de comportamento.”
E você, profissional da saúde:
Como você, profissional de saúde, tem orientado seus pacientes sobre o papel da reeducação e da constância após a cirurgia bariátrica?
Quais estratégias têm dado mais resultado na prática clínica?
Compartilhe sua experiência nos comentários — e ajude a construir uma nutrição mais humana e baseada em evidências.
Referências
- ABESO. Posicionamento Oficial da ABESO sobre o Tratamento da Obesidade no Brasil. São Paulo: ABESO, 2022.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Sobrepeso e Obesidade em Adultos (PCDT). Brasília: MS, 2025.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Obesity: Health Topics Overview. Geneva: WHO, 2025.
- CUMMINGS, D. E.; COHEN, R. V. Bariatric Surgery and Diabetes Remission: Mechanisms and Outcomes. Diabetologia, v. 66, p. 456–470, 2023.
- SUMITHRAN, P. et al. Long-term Persistence of Hormonal Adaptations to Weight Loss. New England Journal of Medicine, v. 365, p. 1597–1604, 2011.
- COCHRANE COLLABORATION. Behavioural and Multidisciplinary Interventions for Weight Management. Cochrane Database, 2023.
- HALL, K. D. et al. Energy Balance and Obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, v. 9, p. 573–585, 2021.


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