A obesidade é um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI.
Mas, ao contrário do que muitos pensam, ela não é apenas resultado de escolhas individuais.
Vivemos em um mundo que favorece o ganho de peso — um ambiente que estimula o consumo excessivo de calorias, reduz o movimento e transforma o cotidiano em uma rotina sedentária.
Esse conjunto de fatores forma o que os cientistas chamam de ambiente obesogênico.

O que é um ambiente obesogênico?
O termo “ambiente obesogênico” foi criado para descrever contextos que promovem o ganho de peso e dificultam hábitos saudáveis (Swinburn et al., 1999).
São ambientes onde é mais fácil consumir alimentos ultraprocessados do que frutas e verduras, mais comum usar o carro do que caminhar, e mais tentador ficar sentado diante de telas do que praticar atividade física.
Esses ambientes estão por toda parte: nas cidades, nas escolas, no trabalho e até em casa.
Fatores que favorecem o ganho de peso
| Categoria | Exemplos | Impacto no peso corporal |
|---|---|---|
| Alimentar | Alta oferta de ultraprocessados, porções grandes, delivery rápido | Aumento do consumo calórico diário |
| Físico | Falta de áreas seguras para atividade física, longas horas sentado | Redução do gasto energético |
| Econômico | Alimentos in natura com preço elevado | Desigualdade no acesso a escolhas saudáveis |
| Cultural | Rotina acelerada, pouco tempo para cozinhar | Preferência por alimentos prontos e rápidos |
| Social | Estresse, isolamento, publicidade de alimentos não saudáveis | Comportamento alimentar impulsivo |
Esses fatores se somam e criam uma tempestade metabólica perfeita.
A influência dos ultraprocessados
De acordo com o Ministério da Saúde (Vigitel, 2024), os alimentos ultraprocessados já representam quase 25% das calorias diárias consumidas pelos brasileiros.
Esses produtos — como refrigerantes, biscoitos, fast-food e embutidos — têm alta densidade calórica e baixo valor nutricional.
Além de alterarem o metabolismo, eles modificam o sistema de recompensa do cérebro, estimulando o consumo contínuo e a sensação de prazer momentâneo (Monteiro et al., 2018).
🔍 Curiosidade: A indústria gasta bilhões em publicidade para promover esses produtos, enquanto o incentivo a frutas, verduras e legumes é mínimo.
A vida moderna e a falta de movimento
A rotina urbana moderna reduziu drasticamente o gasto energético diário.
Passamos horas sentados — no carro, no escritório, nas telas — e poucas pessoas conseguem cumprir as recomendações da OMS de ao menos 150 minutos semanais de atividade física.
O problema não é apenas estético: o sedentarismo afeta hormônios, metabolismo e sono, favorecendo o ganho de gordura e a perda de massa muscular (Popkin & Ng, 2022).
Desigualdade e acesso à alimentação saudável
Nem todos têm as mesmas condições para fazer escolhas saudáveis.
Alimentos ultraprocessados são mais baratos, duram mais e exigem menos tempo de preparo — vantagens que pesam para quem vive em contextos de desigualdade.
Segundo o IBGE (2024), 70% das famílias de baixa renda afirmam que o preço é o principal fator na escolha dos alimentos.
Essa realidade cria “desertos alimentares”, onde é mais fácil encontrar fast-food do que frutas frescas.
E o papel das emoções nisso tudo?
Ambientes obesogênicos também impactam a mente.
O estresse urbano, a pressão estética e a falta de tempo aumentam a ansiedade e o consumo emocional de alimentos.
Além disso, a exposição a redes sociais reforça padrões de corpo inalcançáveis, promovendo frustração e autocrítica — o que agrava o ciclo da obesidade emocional.
Caminhos para um ambiente mais saudável
A transformação começa pelo coletivo.
Segundo a ABESO (2022) e a OMS (2025), enfrentar o ambiente obesogênico exige:
- Educação alimentar e nutricional nas escolas e empresas;
- Criação de espaços públicos seguros e acessíveis;
- Políticas fiscais que favoreçam alimentos saudáveis e limitem bebidas açucaradas;
- Regulação da publicidade infantil;
- Incentivo à produção local de alimentos frescos;
- Apoio psicológico e comunitário para mudança de comportamento.
Conclusão
O ambiente em que vivemos molda nossas escolhas mais do que imaginamos.
Transformar o mundo em que o corpo adoece é um ato coletivo, político e ético.
A obesidade não é uma falha individual — é o resultado de um sistema que precisa mudar.
E essa mudança começa com consciência, educação e empatia.
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E você?
Quais mudanças ambientais ou culturais você acredita que mais impactam nossos hábitos alimentares e de movimento?
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Referências
- ABESO. Posicionamento Oficial da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica. São Paulo: ABESO, 2022.
- Harris JL, Bargh JA, Brownell KD. Priming effects of television food advertising on eating behavior. Health Psychol. 2009.
- Monteiro CA, et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutr. 2018.
- Popkin BM, Ng SW. The nutrition transition to a stage of high obesity and noncommunicable disease prevalence dominated by ultra-processed foods and beverages. Obes Rev. 2022.
- Swinburn B, Egger G, Raza F. Dissecting obesogenic environments: the development and application of a framework for identifying and prioritizing environmental interventions for obesity. Prev Med. 1999.
- World Health Organization (WHO). Obesity: policy responses to an obesogenic world. Geneva: WHO, 2025.
- Vigitel Brasil 2024. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Ministério da Saúde, 2024.


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