A obesidade deixou de ser vista apenas como uma questão estética — ela é uma doença crônica, multifatorial e tratável, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).
Nos últimos anos, os avanços científicos transformaram profundamente o tratamento.
Hoje, sabemos que ninguém “engorda” apenas por comer demais ou se exercitar pouco — há fatores genéticos, metabólicos, hormonais e emocionais que influenciam o peso.
E, da mesma forma, o cuidado precisa ser personalizado e contínuo, com apoio multiprofissional de médico, nutricionista, psicólogo e educador físico.

O primeiro passo: mudanças no estilo de vida
O tratamento da obesidade começa com o que os especialistas chamam de intervenção de estilo de vida:
alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e apoio emocional.
Mas não se trata de “dieta restritiva”.
O objetivo é reeducar o corpo e a mente, entender a fome, reconhecer os gatilhos emocionais e construir hábitos sustentáveis.
Estudos mostram que, mesmo uma perda de 5% a 10% do peso corporal, já reduz riscos de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares (WHO, 2025; ABESO, 2022).
💡 Dica Fructus: Dormir bem, beber água, praticar atividade física e ter acompanhamento regular com nutricionista são pilares tão importantes quanto o que está no prato.
As novas terapias medicamentosas: um marco na história do tratamento
Nos últimos anos, o surgimento dos agonistas de GLP-1 (como a semaglutida) e dos agonistas duplos de GIP/GLP-1 (como a tirzepatida) mudou completamente a forma de tratar a obesidade. Exemplos incluem Ozempic® (semaglutida), Victoza® e Saxenda® (liraglutida), Trulicity® (dulaglutida), o Rybelsus® (semaglutida oral) o Monjuaro® (tirzepatida) e o Zepbound® (tirzepatida).
Esses medicamentos atuam no cérebro e no intestino, ajudando a controlar o apetite, o esvaziamento gástrico e a resposta à glicose — com resultados que vão muito além do peso: melhora da glicemia, da inflamação e da pressão arterial.
Esses agentes atuam em múltiplos alvos:
- Cérebro: regulação da saciedade e do apetite;
- Trato gastrointestinal: retardo do esvaziamento gástrico e modulação da insulina;
- Fígado e tecido adiposo: melhora da sensibilidade à insulina e inflamação.
Ensaios clínicos (STEP-1 e SURMOUNT-1) mostraram reduções médias de 15 a 22% do peso corporal em 68 a 72 semanas, sempre associadas à mudança de hábitos e acompanhamento médico.
| Terapia | Mecanismo principal | Perda média de peso* | Principais efeitos |
|---|---|---|---|
| Semaglutida (GLP-1) | Reduz apetite e retarda digestão | 14–17% | Náusea, plenitude precoce, melhora metabólica |
| Tirzepatida (GIP/GLP-1) | Atua em dois hormônios intestinais | 18–22% | Perda ponderal maior, melhora da glicemia |
| Mudanças de estilo de vida | Reeducação alimentar, exercício, sono | 5–10% | Melhora da disposição e saúde geral |
*Valores médios observados em grandes estudos clínicos internacionais (STEP, SURMOUNT, NEJM 2021-2023).
Cirurgia bariátrica e metabólica: quando é indicada
A cirurgia bariátrica e metabólica continua sendo uma das estratégias mais eficazes em casos de: obesidade grave (IMC ≥ 40); IMC ≥ 35 com doenças associadas, como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares ou apneia do sono; IMC entre 30 e 35 kg/m² em casos mais recentes e sob critérios específicos da ANS, se houver comorbidades agravadas pela obesidade, como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, após tratamento clínico sem sucesso. .
Além da perda de peso sustentada, ela melhora glicemia, colesterol e pressão arterial.
Porém, requer avaliação rigorosa, preparo psicológico e acompanhamento multiprofissional, para garantir que a mudança seja segura e duradoura.
Outras Considerações:
- Fracasso do Tratamento Clínico: A cirurgia só é indicada após a falha no tratamento clínico e mudanças de estilo de vida por pelo menos dois anos, a menos que seja um caso de obesidade muito grave (IMC > 50) ou doenças progressivas.
- Avaliação Multidisciplinar: O paciente deve ser avaliado por uma equipe multidisciplinar, que inclui médicos, psicólogos e nutricionistas, para garantir a adequação do procedimento e o sucesso a longo prazo.
- Idade: A cirurgia pode ser realizada em adolescentes a partir de 14 anos, em casos de obesidade grave e com comorbidades, e entre 16 e 18 anos se os critérios para adultos forem atendidos. A partir dos 65 anos, é necessária uma avaliação individual para considerar o risco cirúrgico e outras condições de saúde.
A importância do acompanhamento psicológico
O emagrecimento envolve muito mais do que calorias.
A saúde emocional influencia diretamente os comportamentos alimentares, o autocuidado e a adesão ao tratamento.
Trabalhar o autoconhecimento, a autoestima e o enfrentamento do estresse ajuda a evitar recaídas e compulsões.
💬 “Cuidar da mente é parte do tratamento do corpo.”
O papel dos profissionais de saúde: segurança em primeiro lugar
Antes de iniciar qualquer tratamento — seja com medicamentos, dietas restritivas ou procedimentos — é essencial procurar orientação médica e nutricional.
Somente médicos especialistas podem:
- identificar causas metabólicas e hormonais do ganho de peso; e
- avaliar indicações e contraindicações de medicamentos.
Nutricionistas podem:
- planejar uma reeducação alimentar segura e sustentável; e
- prevenir deficiências nutricionais e efeitos adversos.
A automedicação e o uso de substâncias “milagrosas” para emagrecer representam um risco real à saúde.
O tratamento da obesidade deve ser individualizado, ético e acompanhado de perto.
A evolução do tratamento da obesidade (2010 – 2025)
O gráfico abaixo ilustra a evolução das abordagens terapêuticas nas últimas décadas:
- 2010–2015: foco em dieta e exercício.
- 2016–2020: surgimento de novos fármacos combinados.
- 2021–2025: consolidação dos agonistas GLP-1 e cirurgia bariátrica e metabólica menos invasiva.
O SUS e o acesso às novas terapias
O Sistema Único de Saúde (SUS) tem incorporado diretrizes atualizadas (PCDT 2024/2025) para o tratamento da obesidade, fortalecendo o acompanhamento multiprofissional e as ações de prevenção.
A meta é ampliar o acesso a educação alimentar, programas de atividade física e acompanhamento clínico, especialmente na atenção primária.
Embora medicamentos modernos ainda estejam em processo de avaliação para incorporação, a abordagem integral já está prevista nas linhas de cuidado, valorizando a pessoa, não o peso.
Conclusão: o peso da ciência e o valor do cuidado
O tratamento da obesidade é uma jornada — e não uma corrida.
A ciência avança, mas o cuidado humano continua sendo a base de tudo.
Combinar conhecimento, empatia e acompanhamento profissional é o verdadeiro caminho para resultados duradouros e saudáveis.
Tratar a obesidade é, portanto, manejar um sistema biológico disfuncional, não corrigir uma escolha moral.
E reconhecer isso é o primeiro passo para reduzir o estigma e fortalecer a adesão terapêutica.
“Tratar a obesidade é cuidar da saúde, não da aparência.”
Conclusão
O ambiente em que vivemos molda nossas escolhas mais do que imaginamos.
Transformar o mundo em que o corpo adoece é um ato coletivo, político e ético.
A obesidade não é uma falha individual — é o resultado de um sistema que precisa mudar.
E essa mudança começa com consciência, educação e empatia.
Continue acompanhando a Fructus e participe dessa transformação com informação e propósito.
E você, profissional da saúde:
Como tem adaptado sua prática à nova era terapêutica da obesidade?
Compartilhe sua experiência nos comentários — e ajude a construir uma nutrição mais humana e baseada em evidências.
Referências
- ABESO – Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. Posicionamento oficial da ABESO sobre o tratamento da obesidade no Brasil. São Paulo: ABESO, 2022. Disponível em: https://abeso.org.br/. Acesso em: 09 out. 2025.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Sobrepeso e Obesidade em Adultos (PCDT). Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/. Acesso em: 09 out. 2025.
- HALL, K. D. et al. The energy balance model of obesity: beyond calories in, calories out. The Lancet Diabetes & Endocrinology, v. 9, n. 9, p. 573–585, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/S2213-8587(21)00166-7
- JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. New England Journal of Medicine, v. 387, n. 3, p. 205–216, 2022. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2206038
- POPKIN, B. M.; NG, S. W. Global nutrition transition and the pandemic of obesity in developing countries. Nutrition Reviews, v. 80, n. 6, p. 101–113, 2022. DOI: https://doi.org/10.1093/nutrit/nuac007
- SWINBURN, B. A. et al. The global syndemic of obesity, undernutrition, and climate change: The Lancet Commission report. The Lancet, v. 393, p. 791–846, 2019. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(18)32822-8
- WILDING, J. P. H. et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. New England Journal of Medicine, v. 384, n. 11, p. 989–1002, 2021. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2032183
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Obesity: Health topics overview. Geneva: World Health Organization, 2025. Disponível em: https://www.who.int/health-topics/obesity. Acesso em: 09 out. 2025.
- COCHRANE LIBRARY. Behavioural interventions for weight management in adults living with overweight and obesity: systematic review and network meta-analysis. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2023. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD013341.pub2
- LILACS / SciELO BRASIL. FONSECA, F. L. A. et al. Efeitos metabólicos do tratamento da obesidade: revisão sistemática. Revista de Nutrição, Campinas, v. 37, p. e210030, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rn/. Acesso em: 09 out. 2025.
- AMERICAN DIABETES ASSOCIATION (ADA). Pharmacologic Approaches to Glycemic Treatment: Standards of Care in Diabetes. Diabetes Care, v. 47, suppl. 1, p. S187–S202, 2024. DOI: https://doi.org/10.2337/dc24-S009


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