Ambiente Alimentar e Decisões Inconscientes: Como o Cérebro, o Marketing e o Estresse Afetam o que Comemos

, , ,

A obesidade deixou de ser vista apenas como uma questão estética — ela é uma doença crônica, multifatorial e tratável, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).

Nos últimos anos, os avanços científicos transformaram profundamente o tratamento.
Hoje, sabemos que ninguém “engorda” apenas por comer demais ou se exercitar pouco — há fatores genéticos, metabólicos, hormonais e emocionais que influenciam o peso.
E, da mesma forma, o cuidado precisa ser personalizado e contínuo, com apoio multiprofissional de médico, nutricionista, psicólogo e educador físico.

O que é o ambiente alimentar (e por que ele afeta tanto o seu prato)

Você já parou para pensar que, muitas vezes, come sem perceber o porquê?
A ciência mostra que até 70% das decisões alimentares são automáticas, não são escolhidas conscientemente, influenciadas pelo ambiente, pelas emoções e até pelo cansaço.

O conceito de ambiente alimentar, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2025), engloba tudo o que determina o que, quando e como comemos: desde o preço dos alimentos até a disposição dos produtos nos supermercados, os anúncios que vemos nas redes sociais e até o aroma de uma padaria pela manhã.

Hoje, entendemos que a obesidade, os distúrbios alimentares e as doenças crônicas são fortemente influenciados por fatores externos: marketing agressivo, disponibilidade de ultraprocessados, rotinas estressantes e ambientes que favorecem o consumo automático.

💬 Em outras palavras: o ambiente “escolhe” junto com você.


O cérebro e a comida: prazer, memória e dopamina

Comer ativa o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina, o neurotransmissor do prazer. Pesquisas em neuroimagem revelam que a exposição a imagens e aromas de alimentos ultraprocessados ativa áreas cerebrais ligadas à recompensa, ao prazer e à memória — mesmo na ausência de fome fisiológica. (Stice et al., 2022)
Alimentos ricos em açúcar, gordura e sal provocam descargas intensas de dopamina — é por isso que uma batata frita parece “mais gostosa” que uma maçã.

Com o tempo, o cérebro aprende essa sensação e cria memórias alimentares de prazer.
Assim, mesmo sem fome, estímulos como cheiro, imagem ou lembrança de um alimento podem acionar o desejo automático de comer (Volkow et al., 2021).


Estresse e sono: os sabotadores invisíveis

O estresse crônico aumenta a liberação de cortisol, hormônio que estimula o apetite e eleva a preferência por alimentos calóricos.
Já o sono insuficiente reduz a leptina (hormônio da saciedade) e aumenta a grelina (hormônio da fome).

Um estudo da Revista de Nutrição (2023) mostrou que pessoas que dormem menos de 6 horas por noite consomem 25% mais ultraprocessados.
Ou seja, quando o corpo está cansado, a mente busca energia rápida — e o ambiente oferece exatamente isso.

Esse ciclo é comum em ambientes urbanos e de trabalho intenso, onde o corpo busca energia rápida e o ambiente oferece exatamente o que o cérebro deseja: açúcar, gordura e conveniência.


O marketing e o design dos espaços que induzem o consumo

Do supermercado ao delivery, quase tudo é pensado para influenciar suas escolhas.
A posição dos produtos nas prateleiras, as cores das embalagens e até a música ambiente estimulam decisões automáticas.

Estratégia de marketingEfeito sobre o consumidorExemplo prático
Produtos ultraprocessados à altura dos olhosAumenta até 30% a compra por impulsoChocolates e salgadinhos no caixa
Embalagens coloridas e slogans emocionaisAtivam memórias afetivas“Sabor de infância”, “feito com amor”
Promoções e porções “grandes”Geram sensação de economia“Leve 3, pague 2” e “tamanho família”
Publicidade digital e redes sociaisEstimula desejo fora de horaAnúncios segmentados por comportamento

Esses estímulos fazem parte do ambiente obesogênico, sendo este um agente ativo do comportamento alimentar, que facilita o ganho de peso sem que o indivíduo perceba.

Como criar um ambiente alimentar mais saudável (dicas práticas)

Pequenas mudanças no ambiente podem transformar a relação com a comida — em casa, no trabalho ou nas escolhas diárias.

💡Dicas para o dia a dia

  1. Deixe frutas e castanhas visíveis e acessíveis.
    O que está à vista é o que o cérebro escolhe primeiro.
  2. Evite fazer compras com fome.
    A impulsividade alimentar aumenta e as escolhas pioram.
  3. Durma bem.
    O sono adequado regula os hormônios da fome e da saciedade.
  4. Monte seu prato antes de repetir.
    Isso dá tempo para o cérebro perceber a saciedade.
  5. Crie rotinas de refeição.
    Comer em horários regulares ajuda o corpo a equilibrar o metabolismo.
  6. Reduza estímulos visuais.
    Tire doces e snacks das bancadas — fora da vista, fora da mente.
  7. Planeje suas compras.
    Faça lista de alimentos saudáveis antes de ir ao mercado.
  8. Siga perfis que inspiram saúde, não culpa.
    O ambiente digital também influencia o real.

💬 “Quando o mundo favorece escolhas saudáveis, a saúde deixa de ser exceção — e se torna o padrão.”

Conclusão: o ambiente também educa

A forma como o ambiente é estruturado determina boa parte das nossas escolhas.
Compreender essa influência é o primeiro passo para recuperar o controle sobre o que comemos.

Promover ambientes alimentares mais saudáveis é uma responsabilidade coletiva: governos, profissionais de saúde, escolas, empresas e indivíduos.
E quanto mais conscientes formos das influências ao redor, mais livres nos tornamos para comer com propósito.

💬 “A mudança não começa com força de vontade — começa com um ambiente que te ajuda a escolher melhor.”

E você, profissional da saúde:

O novo desafio para médicos, nutricionistas e psicólogos é atuar como tradutores da ciência do comportamento, ajudando o paciente a entender o ambiente que o influencia.
Isso inclui trabalhar autopercepção, rotina, planejamento e consciência alimentar — em vez de apenas prescrever “o que comer”.

Promover saúde é mais do que mudar o prato — é transformar o ambiente onde o prato é escolhido.

Como você, profissional da saúde, tem ajudado seus pacientes a reconhecer e transformar o ambiente que influencia suas escolhas?
Compartilhe sua experiência nos comentários — e ajude a construir uma nutrição mais humana e baseada em evidências.

Referências

  • ABESO. Posicionamento oficial da ABESO sobre o tratamento da obesidade no Brasil. São Paulo: ABESO, 2022.
  • COCHRANE COLLABORATION. Behavioural and environmental interventions for weight management in adults. Cochrane Database, 2023.
  • MINISTÉRIO DA SAÚDE (BRASIL). Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: MS, 2014.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Food environments and obesity prevention report. Geneva: WHO, 2025.
  • FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION (FAO). Global food systems and healthy diets. Rome: FAO, 2024.
  • SWINBURN, B. A. et al. The global syndemic of obesity, undernutrition and climate change. The Lancet, v. 393, p. 791–846, 2019.
  • VOLKOW, N. D. et al. Brain circuits underlying food reward and obesity. The Lancet Psychiatry, v. 8, p. 774–786, 2021.
  • STICE, E. et al. Neural responses to food cues and reward in obesity. Nature Reviews Neuroscience, v. 23, p. 680–696, 2022.

Deixe um comentário

SOBRE MIM

Frederico Giesen
CRN6 40361

Nutricionista e Gastrólogo.

Emagrecimento e Cirurgia Bariátrica.

Especialista em Alimentos Funcionais, Nutrigenômica e Fitoterapia. Pós-graduando em Nutrição na Obesidade e Cirurgia Bariátrica e Metabólica – UFPE.