Período Pré-operatório da Cirurgia Bariátrica: Critérios Atualizados, Avaliação Integral e Decisão Consciente

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O pré-operatório de qualidade equilibra ciência e acolhimento.

Nos últimos anos, a cirurgia bariátrica deixou de ser vista apenas como uma intervenção cirúrgica para se consolidar como parte de um tratamento clínico ampliado, baseado em critérios científicos, acompanhamento multidisciplinar e decisões compartilhadas.

A Resolução CFM nº 2.429/25, publicada em 2025, atualiza de forma significativa os critérios de indicação, reforça a importância da avaliação pré-operatória detalhada e insere o conceito de individualização terapêutica, em que cada paciente é avaliado de forma integrada — física, metabólica e emocionalmente

Por que o período pré-operatório é tão importante?

Antes de reduzir o estômago, é fundamental preparar corpo e mente.
O período pré-operatório é decisivo para reduzir riscos, ajustar expectativas e garantir resultados duradouros. Três pilares sustentam esse preparo:

  1. Equipe multiprofissional experiente (cirurgião, endocrinologista, cardiologista, nutrólogo, nutricionista, psicólogo, psiquiatra, entre outros);
  2. Infraestrutura hospitalar adequada;
  3. Comprometimento do paciente com as mudanças de estilo de vida.

Esse “tripé” de cuidados diminui complicações e aumenta a segurança durante todo o processo cirúrgico.

Critérios de indicação: o que muda com a Resolução CFM 2.429/25

A nova norma do Conselho Federal de Medicina (publicada em 2025) atualiza as indicações e amplia o acesso à cirurgia bariátrica e metabólica, sempre baseada em avaliação individualizada:

Critérios clássicos (mantidos)

  • IMC ≥ 40 kg/m², com ou sem comorbidades;
  • IMC 35–39,9 kg/m² com doenças associadas (diabetes tipo 2, apneia do sono grave, hipertensão, dislipidemia etc.) e que melhore com a perda ponderal.

Critérios ampliados (novos)

Pacientes com IMC 30–34,9 kg/m² podem ser indicados à cirurgia quando há doenças metabólicas graves ou risco de lesão de órgão-alvo, como:

  • osteoartrose grave;
  • diabetes tipo 2 resistente ao tratamento clínico;
  • doença gordurosa hepática não alcoólica com fibrose;
  • apneia obstrutiva do sono grave;
  • doença cardiovascular grave com lesão em órgão alvo; e
  • refluxo gastroesofágico com indicação cirúrgica.

Pacientes com IMC ≥ 60 kg/m² devem passar por uma checagem rigorosa da capacidade física e estrutural do hospital para o manejo seguro, bem como da competência da equipe multidisciplinar. A complexidade associada a essa condição clínica eleva o risco de eventos adversos, justificando essas medidas preventivas.

Essa ampliação reflete uma mudança de paradigma: avaliar a obesidade não apenas pelo peso corporal, mas pelo impacto metabólico e funcional sobre o organismo

Avaliação além do IMC: a nova forma de enxergar a obesidade

O IMC ainda é amplamente usado, mas isoladamente não reflete a complexidade da obesidade.
Os protocolos atuais incluem parâmetros complementares que permitem uma avaliação mais precisa e personalizada:

Medida / ExameO que avaliaInterpretação clínica
Circunferência da cinturaRisco cardiometabólicoGordura abdominal ↑ = maior risco de DM2 e dislipidemia
Relação cintura-altura (RCA)Distribuição da gordura corporalRCA > 0,5 → risco metabólico elevado
Relação cintura-quadril (RCQ)Acúmulo de gordura centralAuxilia no diagnóstico de obesidade central
Bioimpedância / DXAComposição corporalDistingue massa magra × gordura × densidade óssea
ACO – Avaliação Clínica da ObesidadeIntegra fatores genéticos, metabólicos e psicológicosDireciona o plano terapêutico individualizado

Esses métodos foram reconhecidos como boas práticas clínicas nas atualizações de 2025, reforçando que o diagnóstico de obesidade deve ser multifatorial.

Idade, histórico e avaliação clínica

  • Idade mínima: 18 anos (em casos especiais, 16–18 com consentimento e equipe especializada).
  • Idade máxima: relativa; pacientes > 65 anos podem ser avaliados, desde que os benefícios superem os riscos.
  • Histórico da doença: considerar tempo de evolução, tentativas prévias de tratamento clínico e adesão a hábitos saudáveis.
  • Tentativas anteriores: dietas, exercícios, farmacoterapia e apoio psicológico devem ser documentados.

Aspectos psicológicos e enfrentamento do estigma

O acompanhamento psicológico é essencial.
A decisão pela cirurgia envolve não só questões físicas, mas também emoções, autoestima e identidade corporal.

  • Pacientes com obesidade desde a infância podem enfrentar mais dificuldade de adaptação à nova imagem corporal.
  • Pessoas com obesidade adquirida na vida adulta tendem a vivenciar o emagrecimento como “retorno” ao corpo anterior.
  • O apoio psicológico antes e depois do procedimento reduz ansiedade, melhora a adesão e previne recaídas.

A gordofobia ainda é uma barreira real. A cirurgia bariátrica não é fraqueza — é uma decisão clínica legítima e respaldada por evidências.

A decisão é compartilhada

O último passo do pré-operatório é o mais importante: decidir com segurança e consciência.
O paciente deve compreender benefícios, riscos e expectativas reais.
A equipe multiprofissional atua para garantir que essa escolha seja informada e respeitosa, considerando o contexto físico, emocional e social de cada pessoa.
Essa conduta respeita o princípio bioético da autonomia e fortalece o vínculo terapêutico — essencial para adesão e continuidade do cuidado.

Conclusão: equilíbrio é o novo foco

O preparo pré-operatório é mais do que uma exigência médica — é um momento de autoconhecimento e reconstrução.
A cirurgia bariátrica não é um “atalho”, mas uma ferramenta terapêutica dentro de um tratamento contínuo.
Com base em critérios científicos, equipe especializada e acompanhamento integral, o paciente tem maiores chances de sucesso e melhor qualidade de vida.

Para profissionais de saúde:

Checklist prático do pré-operatório

  • Confirmar enquadramento nos critérios do CFM 2.429/25;
  • Realizar avaliação multiprofissional completa;
  • Medir cintura, RCQ, RCA e composição corporal;
  • Revisar histórico clínico e tentativas anteriores;
  • Avaliação psicológica e nutricional prévia;
  • Planejar a cirurgia (bypass ou sleeve);
  • Assinar o termo de consentimento informado.

Pontos-chave de atualização (CFM 2.429/25)

TemaAtualização relevante
Critérios de indicaçãoInclusão de IMC 30–34,9 com comorbidades específicas
Avaliação pré-operatóriaExigência de equipe multiprofissional formal
Modelos cirúrgicos recomendadosBypass gástrico e gastrectomia vertical (sleeve)
Técnicas desaconselhadasBanda gástrica ajustável e derivação de Scopinaro
Técnicas endoscópicas reconhecidasBalão intragástrico e gastroplastia endoscópica
Foco diagnósticoAvaliação clínica da obesidade (ACO) + composição corporal
Aspecto éticoDecisão informada e autonomia do paciente reforçadas

Comente sua experiência e ajude a fortalecer o diálogo entre ciência, prática e cuidado humano.

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Referências

  • Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.429/25. Brasília, 2025.
  • Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). Consenso 2024: Critérios clínicos e técnicas recomendadas.
  • Fiocruz (2024). Prevalência de sobrepeso e obesidade no Brasil: tendências e projeções 2044.
  • Manzoli C.; Gómez R. Aspectos metabólicos e psicológicos da obesidade. Rev. Bras. Endocrinol., 2015.

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SOBRE MIM

Frederico Giesen
CRN6 40361

Nutricionista e Gastrólogo.

Emagrecimento e Cirurgia Bariátrica.

Especialista em Alimentos Funcionais, Nutrigenômica e Fitoterapia. Pós-graduando em Nutrição na Obesidade e Cirurgia Bariátrica e Metabólica – UFPE.